terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O malhão não é reaccionário (ao contrário da vaca de Nel Monteiro)


Estamos a poucas semanas de conhecer o desfecho da investigação da Operação Marquês, que deverá levar o Ministério Público a acusar José Sócrates do envolvimento em crimes do mais alto coturno. Hoje, na rubrica O malhão não é reaccionário…, regressamos a Março de 2006, altura em que José Sócrates terminava o seu primeiro ano de mandato como primeiro-ministro do XVII Governo Constitucional. Depois do descalabro político que a fuga de Durão Barroso para Bruxelas provocou na Direita portuguesa, agudizada subsequentemente pela trágica peça de vaudeville “O Menino Guerreiro”, protagonizada por Pedro Santana Lopes, José Sócrates conquistava a maioria absoluta no Parlamento e tomava firmemente as rédeas do país, inaugurando uma cavalgada heróica que culminaria na conquista do prémio “Sexy Platina” em 2009, atribuída pelo Correio da Manhã ao homem mais sensual de Portugal. Os leitores do diário de maior tiragem do país davam a conhecer o macho lusitano que mais os fazia suspirar libidinosamente nas horas solitárias da noite. 
Não obstante, José Sócrates foi  por muitos considerado o primeiro-ministro mais autoritário até então. A forma truculenta com lidava com as críticas, a relação de subserviência que exigia da comunicação social, a tendência para o controlo totalitário do aparelho de poder, a índole revanchista das suas declarações públicas, entre outros tiques reveladores de pouca candura democrática, contribuíram para o epíteto. Paralelamente, e à semelhança dos seus antecessores, foi um defensor convicto do investimento em grandes obras públicas. O novo aeroporto da Ota, o comboio de alta velocidade e a terceira travessia sobre o Tejo formavam a receita que produziria o "inevitável" progresso económico do país. Esperava-se uma enxurrada de fundos públicos que, à semelhança do que acontecera com projectos como a Expo 98, o Euro 2004 e a Casa da Música no Porto, vertesse em jorros abundantes e de «mão beijada / [para] quem já ganha milhões», enquanto pelo país "real" se contavam tantos «milhões sem ganhar nada». A denúncia era feita, à altura, por Nel Monteiro no seu tema de 2006 Puta Vida Merda Cagalhões (ou PVMC, um acrónimo neutro para quem tolera mal o vernáculo). 


Este álbum, eloquente e vertiginoso, esconde algumas pérolas de um género que podemos apelidar de “pimba de intervenção” (no caso, com evidentes guinadas à Direita). Em Nel Monteiro temos o Beppe Grillo da música popular, um Márinho e Pinto anterior a Márinho e Pinto; temos, enfim, um pioneiro da musical-reacção. As suas canções mais políticas facilmente seriam adaptadas (houvesse imaginação e vontade) como hinos de qualquer movimento populista. Quem olhasse para Justiça Popular, tema seu de 2003, adivinharia já a semente de uma tendência política que cresceria ao longo dos quinze anos seguintes, em que veríamos as sinistras franjas do espectro político converterem-se em galvanizadores da indignação dos descamisados do novo século e, finalmente, nos seus legítimos representantes, eleitos através de sufrágios livres: «Para onde vão os milhões / Que a Portugal vêm parar? / Que um operário não vê / Mas que os tem de pagar. / Enquanto os operários / Melhor vida não tiverem / A merda que os ricos cagam / Que a limpem se quiserem». Como se vê, a escatologia anda de mão-dada com o discurso populista, algo frequentemente apontado a quem os profere (aos discursos, não à escatologia), sobretudo em tom depreciativo.


A par deste tópico fedorento, o descrédito pelo sistema democrático é outra das temáticas recorrentes. A canção Já não cola (2005), lançada a tempo das legislativas que resultaram na eleição de José Sócrates, apregoa uma clara desistência nas virtudes do sistema democrático, o grito de frustração do povo que se vê traído por aqueles que o deviam representar, e que vem cristalizada no seguinte mote, glosado ao longo de todo o tema: «Fazem promessas para o voto cobiçar / É um vale tudo para subir ao poleiro». Muito se tem escrito sobre a percepção generalizada dos políticos como uma classe corrupta, interessada apenas na perpetuação dos “empregos” (uma queixa que já em oitocentos era apontada ao funcionalismo público português) e que, a par de uma proverbial inoperância e incompetência na resolução dos problemas do país, justificou a entrada em cena de regimes mais musculados ao longo de toda a história contemporânea. Igual proposta parece ter o autor para os problemas da nossa infame III República: «Que se acabe essa guerra de papel / Tudo mentira que ao longe bem se topa / O que é preciso é apostar na mudança / Para não sermos a vergonha da Europa». E, no refrão, de novo o apelo à salvação da honra da pátria. «É uma guerra de mata e esfola / Mas que já não cola, mas que já não cola. / Chegou a hora de erguer a moral / Vai haver mudança, força Portugal!». Vivesse Nel Monteiro na década de vinte do século passado e rapidamente as suas cantigas seriam arrebanhadas pelas Revistas populares que premeditaram a chegada da Ditadura Militar. 


Todavia, sendo Nel Monteiro um homem do seu tempo, e sofrendo com o vexame nacional que diariamente desfila pelos corredores atapetados da Assembleia da República, o artista opta por recordar uma época de paz social e de felicidade, de agruras, é certo, mas, e acima de tudo, de pessoas humildes e honestas. «Tive de apertar o cinto / Nos tempos de Salazar / Até na teta da vaca / Ao curral ia mamar. / Às vezes tenho saudades / Desses tempos que lá vão / O melhor que sei da vida / devo a essa escravidão». Cá está, a construção de um passado luminoso e de cândida miséria, onde, nas mais duras privações, o povo descobre o encanto dos pequenos prazeres da vida. Tempo de homens rijos e da primordial ligação à terra. Das vontades simples do corpo. O tempo da inocência e da mais pura beleza.
É difícil encontrar na música pimba referências ao lúrido professor de Coimbra que governou o país com mão de ferro durante quarenta anos. Ora, em Mama na Vaca de Nel Monteiro, incluída no já citado disco PMVC, a referência é dupla: cantado na ode pastoral que é a estrofe citada; e como invocação da autoridade do sábio, da bênção do pai protector, enfim, como proposta programática para o regresso a um passado mais feliz: «Nos tempos de Salazar / O pobre ganhava mal / Mas sempre ainda tinha / Umas vacas no curral. / Quem me dera encontrar / Esse velho ditador / E dizer-lhe que por cá / Vamos de mal a pior». Não bastava ao autor dourar a memória de uma realidade que, de resto, só existe como refúgio nostálgico, artifício típico do sentimentalismo “reaça”. Não. Nel Monteiro propõe um encontro com o «velho ditador», oferecendo-se para carregar ao lombo a culpa de uma sociedade impenitente. Por ela, contra a vontade dela, roga-lhe misericórdia, tentando o regresso àquele saudoso lar paterno que todo um rebanho tresmalhado renegou em favor de uma aventura irresponsável e estéril – a democracia.


Uma última nota ainda a propósito da carga doutrinária que exala de cada verso. Nel Monteiro sente pena por quem, ao contrário dele, não teve o privilégio de saborear as maravilhas naturais directamente da fonte: «Quem nunca mamou da vaca / Não sabe o que é bom.» E critica quem, armado em moderno, não passa afinal de um pacóvio ignorante: «É melhor mamar na vaca / Que mamar no biberão.» A chave está na última palavra, e na formulação usada. O autor, imbuído de fervor patriótico, rejeita o galicismo (e mais correcto) biberon, substituindo-o pela terminação lusa –ão. Não o aflige que, ao optar por esta terminação, está a sacrificar a rima. E não uma rima qualquer, mas a do próprio refrão! A rima que, na música pimba, é a pulsação do verso. Nel Monteiro não tem escrúpulos. Não lhe bastava o chorrilho de pestilentas alusões da cantiga. Era-lhe necessário perpetrar o crime capital que perde o artista: o de sacrificar a sua arte por essa mais devassa e fria das galdérias que é a política.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O malhão não é reaccionário


«Ai malhão, malhão / Gritámos “libertação”! / Fecharam-nos logo a boca / Porque éramos a reacção». Quim Barreiros exprimiu assim o lamento pela acusação vil de que a música tradicional foi alvo durante o período revolucionário. Em 1975, em pleno verão quente, lança o tema «O Malhão não é reaccionário», que dá nome a um dos seus mais emblemáticos discos. Na verdade, a canção é um grito de luta contra as tentações totalitaristas de qualquer inclinação – «Fora a foice e o martelo / Não queremos mais ditaduras / Fora a foice e o martelo / Abaixo os oportunistas / E os fascistas do Marcelo». O que Quim pedia, dando voz aos anseios de uma grande maioria que se via como «honesta e trabalhadora», era a normalização institucional do regime e o respeito pelas liberdades e garantias democráticas. E deixava no ar a ameaça de que o mesmo povo «Pouco politiqueiro / Se lhes pisam o rabo / [É] o mais desordeiro».
Se Quim Barreiros se vê nesta altura forçado a defender a canção tradicional, tal resulta da polarização política que ameaçava fazer estalar no país uma guerra civil, em que, esquematicamente, o Norte conservador e o Sul progressista constituiriam as partes beligerantes. O malhão e a chula, típicos do Minho, a região mais reaccionária, feudo da Igreja protegido da ameaça soviética pela acção das milícias do Cónego Melo, eram considerados pelas forças revolucionárias como verdadeiros hinos ao edifício social do antigo regime e instrumentos de jugo e de torpor sobre a mente popular. De certa forma como o fado era para Lisboa, o analgésico do regime contra as agruras da miserável vida das populações urbanas.
No entanto, nem sempre foi assim. Malhão e cantigas de intervenção chegaram a partilhar temas progressistas. Um caso célebre é o de Tino Flores, portuense exilado em Paris por recusar combater na Guerra Colonial, que vai recorrer à música popular para alertar o povo para a sua condição de súbdito da opressão de Salazar. Em França, Tino envolve-se em grupos clandestinos de extrema-esquerda e participa activamente no Maio de 1968. O seus primeiros EPs, gravados por esta altura, têm por títulos “Viva a revolução”, “Organizado o povo é invencível” e “O povo em armas esmagará a burguesia”. Chega a tocar ao lado de José Afonso e José Mário Branco à medida que o seu estatuto artístico se vai consolidando. Era pois na instrumentalização da música popular que Tino se distinguia dos demais cantautores da resistência ao fascismo. Acreditava que a mensagem política seria mais facilmente aceite e mais veementemente instigada a luta se oferecidas num invólucro musical enérgico e alegre. Esta abordagem contrastava nitidamente com a dos seus colegas, cujo estilo musical era dominado pelas «expressões performativas da balada». Assim, Tino Flores acreditava que o malhão e a chula poderiam ser, ao contrário do que se considerou durante e depois do PREC, aliados da revolução:
Acho que nessa época foi giro porque houve essa alteração de as pessoas estarem num espectáculo todos sentadinhos e com aquele ar a ouvir canções do «coitadinho, foi preso…» e outra coisa era, digamos, o apelo «Vamos comê-los!». Os temas eram pensados nesse sentido, mais nada. Era aquilo que eu achava que devia dizer (…) e portanto um gajo tinha de chegar ali e ganhar aquilo assim logo! E isso era a eficácia (…) Uns ficavam chocados e depois alinhavam, mas depois a malta mais jovem chegava cá fora e dizia-me «Foda-se, é isso que um gajo quer ouvir, o que a malta tem de fazer». Era esse o objectivo. [1]
Estes parágrafos servem de introdução a uma nova rubrica que inauguramos n’A Sagrada Dancetaria. Se esperamos ter defendido a música popular das acusações de reaccionarismo, a verdade é que mesmo nos melhores panos caem terríveis nódoas. Na rubrica “O malhão não é reaccionário, ao contrário de…» iremos inventariar e dissertar sobre as nódoas musicais que ao longo dos anos têm apregoado as virtudes do mais arreigado conservadorismo. Percorreremos todos os géneros da música tradicional portuguesa, já que a nefanda estaca onde o fascismo pega de enxertia ganha viço em qualquer formato. Não cumprimos outra missão que não a da crítica instrutiva das cantigas que ouvimos, aflorando todas as vertentes em que tocam: musical, literária, social e política. Porque é nosso dever zelar pela libertação que, depois de 48 anos de mutismo, nos deu os cantares brejeiros e a alegria de dançar sobre as grilhetas das convenções. Também foi pelo Pimba que se fez Abril. 

[1] Tino Flores citado em «Discos na luta: a canção de protesto na produção fonográfica em Portugal nas décadas de 1960 e 1970» (2012) de José Hugo Pires Castro, Lisboa: FCSH, p. 46.

LEITÃO, Pedro

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O Marajá de Belém


A primeira vez que me cruzei com a figura de Mário Soares vinha ele montado num grande elefante branco ricamente ornamentado, seguido por outros dois elefantes, mais pequenos e não tão ricamente ornamentados, que transportavam, respectivamente, a Primeira-Dama e a Margarida Marante, a jornalista que o acompanhava naquela viagem presidencial. Quando ele aparece no ecrã da televisão, traz um ar majestático, iluminado pelo traje todo branco, pelas lantejoulas que simulam pedras preciosas, pelo turbante laranja e pelo penacho no topo da cabeça, que balança enquanto a cabeça que o enverga atira copiosos beijos e gracejos à plateia. A Margarida vem rabugentíssima. Já não pode com as picadas dos mosquitos, tem nojo da comida e queixa-se dos indígenas, sempre sujos e pegajosos. O Mário desce do elefante, tranquiliza-a, enquanto dos nativos recebe vários colares de flores exóticas. Ao agradecer-lhes de braços abertos, imediatamente se prostram a seus pés, começando a adorá-lo como um ícone. O Marajá de Belém magnanimamente concede-lhes essa permissão e, como prova da sua gratidão, participa com eles numa dança tribal. Pouco depois, a canção transforma-se radicalmente e passamos a ouvir da sua boca o verso “Já fui o conquistador!” popularizado pelos Da Vinci e que resume perfeitamente a tour de visitas presidenciais que marcou esse ano de 1992.  
A rábula do Marajá de Belém é indissociável da figura que tenho de Mário Soares. Interpretado pelo José Manuel Rosado, aka Lydia Barloff, rainha máxima da história do travestismo em Portugal, a caricatura encenada no palco do Variedades pela mão do La Féria é, na sua circunstância, um tributo às conquistas políticas de Soares.
A figura de Soares era dada a este tipo de apropriações cómicas. Republicano até ao tutano, foi o mais monárquico dos presidentes de todas as três repúblicas (isto é, até à chegada de Marcelo, o Segundo). Mas a legitimidade de monarca tinha-a ele conquistado, não lhe fora passada ou herdada. A sua majestade, ao contrário da que dourava os últimos da Casa de Bragança, advinha de uma cruzada de décadas, na sua índole idêntica à da fundação das dinastias reinantes do nosso país. Tampouco se apresentava como um missionário da política, mártir ao serviço da pátria e exemplo de sacrifício. Esse número havia rodado ininterruptamente durante cinco décadas na Emissora Nacional, cinquenta longos anos em que Soares foi, efectivamente, a voz e cara de uma missão política que lhe exigiu enormes sacrifícios ao serviço da pátria. Mas, ao contrário dos seus antecessores, Soares não quis adornar a sua figura política com um manto (tão justo, no seu caso) sofrido e tolhido pelo dever. Sem apagar a memória, quis que o país desentorpecesse os membros e voltasse a gostar de viver; e voltasse a gostar de rir. Consigo ou de si, não importava, desde que risse com gosto.
A Revista é um terreno ingrato para um revolucionário, já que vive de um catálogo prenho de referências ao antigo regime. São as marchas populares, inventadas pelo Ferro para adocicar a propaganda da ditadura. São os ícones da miséria, dos bairros decrépitos ao arraial de profissões típicas que mascaram a pobreza. É o panteão de personagens que viveram em colaboração com o regime e que com ele, e por ele, se fizeram grandes. Mas era também na Revista que se beliscava a moral e os bons costumes; que se mandava, com jeitinho, os poderosos à merda; e onde se apresentavam novas ladainhas brejeiras para contornar o lápis azul, deixando o censor a clamar “ó pistari, ó pistaró” pela corrupção moral da populaça.
A brilhante síntese soarista é retratada na figura do Soares caricaturado em Marajá de Belém, e o seu programa ideológico não podia ser tornado mais clarividente por outra forma do que através de um número de Revista. Aproveitar as coisas boas da vida sem mortificação. Ser vaidoso no homem e no trabalho que se constrói. Aceitar a imperfeição própria, a imperfeição dos outros, a imperfeição moral (palavra odiosa) do povo, e fazer pouco de todas as imperfeições para as corrigir sem recorrer ao cilício. Romper com o mal do passado sem esquecer que no passado houve gente que, ao contrário dele, não lutou, que colaborou, que viveu como pôde e como sabia melhor. Soares quis que esses também tivessem direito a rir, quis que a Revolução fosse feita para que os que não lutaram também pudessem – sozinhos, com ele ou dele – rir mais francamente, mais desbragadamente, mais livremente.
Em última análise, devemos ao Marajá de Belém a possibilidade de apreciarmos todas as coisinhas boas que trazemos para este blogue. Sem ele não haveria a subtileza perversa das letras do Pimba. Só haveria enjoativas marchas de arco e balão ou os luminosos mas distantes amanhãs das cantigas de intervenção. Não compraríamos panelas de pressão sem a adesão à CEE. Não recorreríamos à comunhão de bens sem um Estado laico. Não exploraríamos as nossas taras e manias, ou porque ainda estaríamos agrilhoados ao tríptico castrador de outrora, ou porque nos dedicaríamos compenetradamente a desenhar um Homem Novo expurgado de tais defeitos. Fazendo eco do rol de obituários que inundam os jornais por estes dias, diríamos que Soares é o pai da democracia e de todas as coisas que enumerámos. Mas adivinho que o Marajá dissesse (como disse, de facto, numa das muitas vezes em que foi interpretado por Mário Soares), citando outra grande estrela da Revista: «Vá chamar pai a outro».

LEITÃO, Pedro

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Cançoneta da Semana


  1. Reis dos cantares alentejanos progressivos, os PSST TO MAXOSTE ambicionaram unir os jovens da terra com as tradições musicais locais e percebendo que o sucesso estava à vista gravaram "Stress Alentejano", de onde extraímos a faixa que hoje vamos ouvir. Convidaram um grupo de catraios da terra, e numa grande homenagem aos tempos dourados de Camilo de Oliveira fazem uma desgarrada infantil onde alteram o nome de José Sócrates para Socrátes, jogada rimática ousada, mas bem sucedida ao encontrar par com "empate". A garotada discute o estado da Nação e isso só nos pode tocar no coração. Ouçamos então: 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Maria Destemida

Maria é uma mulher emancipada, obstinada, decidida a fazer da vida o que lhe aprouver, Maria inveja aos homens a ampla prerrogativa concedida pelo costume, ressente-lhes a esforçada via que a obrigam – ilusão de igualdade, sina de dificuldade (por necessidade) – Maria é uma afronta à ordem e à compostura, como os artistas em ditadura ou as meretrizes de morada estabelecida, e por isso o povo lhe deu o título e a sorte madrasta: Maria Destemida, mulher da vida, rainha da estrada.
Maria leva os dias em perpétua viagem pelos itinerários. Faz a vida na estrada. Não ataca nas curvas nem palmilha as esquinas buscando sustento. A comparação é fácil e grosseira. Maria tem um trabalho de homem e ninguém lhe perdoa a desfaçatez. Mas ela continua, impassível. Agarra o volante como quem segura o leme, e segue em frente, no meio de toda a gente, sem medo de nada.
Os comentários, piropos e graçolas contorna-os como os obstáculos no caminho, no seu caminho – a estrada. Foi nela que Maria traçou o destino porque cedo deitou mãos à vida. Fez da vontade os seus trilhos, afoita e desgraçada, mulher destemida, mulher ingrata. Maria pagará pela ousadia.
Leonel Nunes compôs-lhe uma canção. Ele é um homem do seu tempo, versejador da condição humana, atento ao Ser e à sua circunstância. No poema, Leonel tenta uma árdua conciliação entre as egrégias leis da tradição e as aspirações emancipadoras que mulheres como Maria clamam. A harmonia é possível, Leonel sabe-o. Mas entrava-a a arrogância, quer do povo, quando maldiz Maria, quer da mulher, quando recusa toda e qualquer a ajuda. Leonel recorre então ao mais subtil ardil para enjeitar o caminho da concórdia: a ironia.
O autor louva a ousadia de Maria ao cantá-la nas palavras jocosas do povo, quando este a acusa de vadiagem. Traça os preceitos, as comparações, e é pela sujeição ao ridículo, à tacanhez dos seus acusadores, que Maria é elevada como força empreendedora entre o marasmo de ignorância que a cerca. Por outro lado, subjuga Maria à sua natural (porque natural é toda a carne) condição de mulher. Diríamos, de mulher errante, de ovelha extraviada do rebanho. Inoperante na sua solitude, face à impotência para mudar um pneu furado e assim seguir a sua marcha, Leonel não se assume diferente dos outros homens pecadores. Também ele se ri de Maria – também ele apedrejaria Madalena, ainda que para a salvar da multidão. Mas ao compreender-lhe a humanidade, ao escutar nela a solidão, é capaz de estender solicitamente a mão, redimindo em Maria a arrogância que a fere fatalmente. No final da troca do pneu furado por um novo, perfeito, quem sabe se os caminhos solitários da noite não serão já trilhados por um volante a quatro mãos.

Moral da história. Não a sabemos. Talvez a recusa da moral, a sua arrogância e severidade para com a natural ignorância do homem. Mas também a arrogância dele (dela) ao condenar toda a ajuda, a arrepio da douta e boa moral. Nunca saberemos ao certo. Mas algo é incontornável, implacável, claro e sempre presente: a ironia do nosso destino. Nesta música há um elemento que surge como o timbre da crua constatação do seu inexorável sentido. Leonel canta no refrão: «Ficaste empanada, furada na estrada, e agora…». As reticências preparam a punchline: «quem ri --- sou eu!». Não por acaso, ao pronunciar o verbo “rir” cai num relâmpago o som de um prato de bateria que inflama o verso como um golpe de adaga e é na espinha que sentimos a mordidela, a ácida mas libertadora mordidela da ironia. O seu som ressoa por todo o refrão, e quando termina a canção ainda persiste no nosso pensamento, como o choque de descobrir, pelo golpe de um prato de bateria, a derradeira comédia de toda a existência. É esta a beleza e a mestria de Leonel Nunes.


Por LEITÃO Pedro